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Transplante de microbiota fecal em cães atópicos e novas evidências sobre o eixo intestino–pele

  • 15 de jun.
  • 2 min de leitura

Essa pesquisa acaba de ser publicada na Veterinary Dermatology e certamente traz uma perspectiva clínica bastante promissora.


O conceito do eixo intestino–pele circula há anos na dermatologia humana, mas infelizmente na veterinária ainda dispúnhamos de evidências limitadas. Desenvolver e executar estudos como este representa um grande desafio, tanto do ponto de vista clínico quanto microbiológico, porque envolve desafios de recrutamento de pacientes, padronização e a necessidade de alto rigor metodológico inerente à boa pesquisa clínica.


Este foi um estudo clínico prospectivo, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo que avaliou 40 cães com dermatite atópica. Vinte cães receberam placebo e 20 receberam transplante de microbiota fecal (TMF), administrado tanto por cápsulas liofilizadas por via oral quanto por administração retal.


Foram avaliados diversos parâmetros clínicos, incluindo o índice de extensão e gravidade das lesões (CADESI-04), escore de prurido (PVAS), necessidade de medicamentos, percepção dos tutores sobre resposta ao tratamento, dentre outros.


Resultados

Os resultados foram bem amplos, mas destaco aqui três principais:


1. Melhora significativa na gravidade das lesões cutâneas, avaliada pelo CADESI-04, nos cães que receberam TMF.


2. Os cães tratados com TMF demonstraram menor necessidade de medicamentos para controle da doença, sugerindo um possível efeito poupador de medicação.


3. O TMF foi considerado seguro e bem tolerado, os efeitos gastrointestinais observados foram leves e autolimitados.


Do ponto de vista do microbioma, o estudo não realizou análises aprofundadas de composição, diversidade ou de mecanismos envolvidos. Como foram avaliados principalmente desfechos clínicos, ainda não sabemos quais alterações ocorreram na microbiota intestinal ou quais mecanismos imunológicos relacionados ao eixo intestino–pele estão envolvidos nessa resposta.


Além disso, alguns cães tratados com TMF apresentaram recidiva ao longo do acompanhamento de 12 meses, sugerindo que o efeito pode não ser permanente e que protocolos de manutenção ainda precisam ser melhor estudados.


Ainda assim, considero um estudo muito robusto e que estabelece um importante precedente. A DAC continua sendo uma doença complexa e multifatorial, que exige uma abordagem multimodal e personalizada. Porém, pesquisas como essa reforçam a relevância do eixo intestino–pele e sugerem que a modulação do microbioma, seja por meio de estratégias de TMF, ou até nutricionais, prebióticas, probióticas e afins, continuam promissoras.


Acredito que o eixo intestino–pele será cada vez mais presente e debatido na dermato, e a expectativa é que novas pesquisas continuem acontecendo para que os clínicos possam se apoiar em evidências cada vez mais sólidas e seguras, podendo se tornar mais uma ferramenta terapêutica para auxiliar no controle da DAC e na promoção do bem-estar animal.


Referência

Felten V, West EA, Martini F, Favrot C, Unterer S, Suchodolski J, Scharl M, Renz H, Fischer NM, Rostaher A. Faecal Microbiota Transplantation Reduces Lesion Severity and Medication Use in Canine Atopic Dermatitis: A Randomised, Placebo-Controlled, Double-Blinded Clinical Trial. Vet Dermatol. 2026


Sobre a autora

Dra Aline Santana é Médica Veterinária formada pela Universidade Federal de Viçosa, com residência em clínica médica de pequenos animais pela mesma instituição. Possui mestrado e doutorado em Ciências pelo Departamento de Clínica Médica da FMVZ/USP, com período de intercâmbio realizado no exterior (University of Minnesota, Estados Unidos). 

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