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Por que os gatos são pouco estudados na dermatologia veterinária?

há 19 horas
2 min de leitura

Um dos meus maiores incômodos dentro da dermatologia veterinária é saber o quão pouco o gato ainda é estudado.


As dermatopatias felinas ainda tem entidades clínicas e morfológicas muito pobremente descritas e definidas. E isso reflete não só uma nomenclatura deficiente, mas também sinaliza lacunas importantes na forma como reconhecemos, classificamos e compreendemos as doenças de pele dos gatos.


A título de exemplo, um mesmo “padrão de reação cutânea felina”, como a dermatite miliar ou o complexo granuloma eosinofílico, pode estar associado a diferentes doenças e etiologias, que vão desde processos alérgicos até parasitários. 


Toda essa escassez de conhecimento traz desafios diagnósticos e terapêuticos não apenas para quem está começando, mas até mesmo para quem já tem experiência na especialidade.


Cães aparecem em 5,5 vezes mais estudos do que gatos

Recentemente, fiz uma busca simples na revista Veterinary Dermatology, considerando os termos “dog” ou “canine” no título dos artigos, e encontrei 160 trabalhos publicados nos últimos três anos. Para “cat” ou “feline”, foram apenas 29. 


Ou seja, foram publicados cerca de 5,5 vezes mais trabalhos sobre cães do que sobre gatos.


Naturalmente, as publicações na revista são apenas um reflexo de um fenômeno maior, que envolve tanto o comportamento dos pesquisadores quanto o número de casos e casuísticas que são reportados por clínicos e patologistas.


Mas por que os gatos são pouco estudados na dermato?

Existem vários fatores que podem contribuir para esse fenômeno, e quero compartilhar aqui ao menos três que são frequentemente discutidos pelos pesquisadores:


  • Peculiaridades metabólicas e farmacológicas: o metabolismo felino possui particularidades que tornam a extrapolação de informações sobre fármacos e protocolos terapêuticos muito mais complexa.

  • Comportamento e estresse na amostragem: comparativamente, os gatos apresentam desafios particulares relacionados ao transporte, contenção e manipulação. O estresse associado à coleta de sangue, por exemplo, pode interferir em algumas variáveis fisiológicas e laboratoriais e também tornar a inclusão e o acompanhamento de pacientes em estudos mais desafiadores.

  • Financiamento e mercado: historicamente, a indústria farmacêutica veterinária e o financiamento acadêmico direcionaram muito mais recursos para a pesquisa em cães, acompanhando um mercado veterinário que por muito tempo foi predominantemente canino.


Pespectivas futuras e “Cat Era”

Toda essa percepção histórica, social e econômica acabou moldando a imagem do gato como uma espécie “difícil” e deixada de escanteio tanto na academia quanto no mercado. Mas, o cenário está mudando e ao que tudo indica, os gatos estão “em alta”, tanto nas preferências dos tutores quanto no mercado veterinário.


Nos EUA, por exemplo, pesquisadores e representantes da indústria já vêm chamando esse fenômeno de “Cat Era” (era dos gatos) e “Feline Revolution” (revolução felina). E, se essa tendência se consolidar, ela pode impulsionar novos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D), trazendo cada vez mais estudos e, consequentemente, mais conhecimento e soluções para as doenças de pele dos gatos.


Sobre a autora

Dra Aline Santana é Médica Veterinária formada pela Universidade Federal de Viçosa, com residência em clínica médica de pequenos animais pela mesma instituição. Possui mestrado e doutorado em Ciências pelo Departamento de Clínica Médica da FMVZ/USP, com período de intercâmbio realizado no exterior (University of Minnesota, Estados Unidos). 

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